ÍTALO, Bruno. Hologramas. Aquarelas de Ana Cristina Elias. São Paulo: Reformatório, 2026.
_____
pela mão me guia
pequeno descobridor –
eu nada sabia
_____
o raio de sol
visita na quarentena –
não estou mais só
ÍTALO, Bruno. Hologramas. Aquarelas de Ana Cristina Elias. São Paulo: Reformatório, 2026.
_____
pela mão me guia
pequeno descobridor –
eu nada sabia
_____
o raio de sol
visita na quarentena –
não estou mais só
MACHADO, Paulo. Amordaçar um lobo. Poesia reunida. Teresina: Fundação Quixote, 2026.
Edição reunindo os livros Tá pronto, seu lobo? (1978), A paz do pântano (1982), além de poemas esparsos e entrevistas. Capa de Amaral e projeto gráfico de Paulo Moura.
_____
POSTULADO
ao poeta William Melo Soares
fazer poemas é fácil
como amordaçar um lobo
_____
POST CARD 57/77
à memória do artista plástico Fernando Costa
na praça marechal deodoro
às nove horas falavam
da udn e do american-can
na praça marechal deodoro
às nove horas há velhos com suas memórias
recompondo o tempo
um louco jaime fazia ponto no cruzamento
da barroso com a senador pacheco sem saber
que existia a guerra fria
no cruzamento da barroso com a senador pacheco
há um sinal que não raro
encrenca desafiando a rotina
quinta-feira era dia de matar o tempo
na praça pedro segundo enquanto os sapos
copulavam nos lajedos do tanque
quinta-feira é um dia qualquer
e na praça pedro segundo a mudança notável
é a da posição da estátua que parece sorrir
nas tertúlias do clube dos diários
uma geração embarcava no marasmo
esquecendo tudo mais
não há tertúlias no clube dos diários
as baratas medrosas saem das bocas-de-lobo
admiram os caixotes de cerveja empilhados e fogem
nos canteiros da avenida frei serafim
os cupins construíam suas casas
fiando estranha quietude
nos canteiros da avenida frei serafim
putas acenam com gestos medidos
a fome é mais forte que o medo
no bar carnaúba o sol roía o marrom
das tabículas das mesinhas
e os homens de casimira cinza faziam planos
não há bar carnaúba mas os homens
de casimira cinza continuam fazendo planos
cogitando não aceitando irreverências
na paissandu os bêbados
pregavam a subversão
e um bolero esquentava as entranhas da noite
a paissandu agoniza
os bêbados já não falam tanto
e a frieza da noite venceu o calor dos boleros
nas calçadas da simplício mendes
um rosto magro madalena deixava brotar
estranhamente um sorriso largo de espera
madalena morreu de câncer
e nas calçadas da simplício mendes
nada há que lembre sua presença
no mercado central pretas carnudas
vendiam frito de tripa de porco
fígado picado e caninha
no mercado central negrinhos descarnados
catam laranjas e limões podres
em plena manhã de maio
no cais do parnaíba piabas prata
saltavam das águas barrentas
como no sonho dos meninos
o parnaíba continua lavando as almas pagãs
dos meninos fujões
roendo as pedras do cais com a mesma fúria
SOUSA, José Elielton de. Malinação. São Paulo: Primata, 2025.
⸻
DRAGÃO LUNAR
a lua nua
clareia o dragão
que vai engolir
o mar e o sertão
.
⸻
.
A VILA EM RUÍNAS
e sobre a cidade solar
o peso calado do tempo
invade calçadas memórias
o barro argiloso despacha
antigos vestígios rupestres
da vila escorada nas águas
nos rios canoas e cadáveres
levados nas torrentes em marcha
os bancos de areia resistem
o centro desfaz a paisagem
e sob cemitérios de ossos
feirantes no mercado central
a leste a miséria da riqueza
despeja concreto nas lagoas
e erige museus e suspenses
crispim condenou-nos a todos
sem mãe sem rainha que solte
o grito entalado na garganta
.
José Elielton de Sousa nasceu e mora em Teresina, Piauí, e foi criado no interior – para onde sempre volta, ainda que na imaginação. É doutor em filosofia, professor e poeta. Publicou o livro As virtudes da responsabilidade compartilhada: uma ampliação da teoria das virtudes de Alasdair MacIntyre [Filosofia/Editora CRV, 2017] e participou da organização dos livros Hospitalidade Hermenêutica [Filosofia/Fundação Fênix, 2020], Filosofia e um monte de outras coisas [Ensaios/EDUFPI, 2019] e Do Centro da Margem: invenções contemporâneas deste lado de cá do mundo [Ensaios/Fundação Fênix, 2024]. Malinação é seu primeiro livro de poesia.
MELLO, Val. À sombra dos carcarás. Rio de Janeiro, RJ: Ventura, 2025.
⸻
NASCIMENTO
A navalha certeira
desfere seu corte
entrega à sorte
entanguidos umbigos
Na rudeza
do empoeirado gibão
a natureza exibe
boiadeiros sem pastos
destinados a montar em sonhos
O vento os conhece pelo nome
o tempo, pela coragem
e assim são registrados
os desafiantes da morte
pelos gumes da vida.
⸻
CHÃO DE RELICÁRIO
Espaço dos sonhos improváveis
prazeres incomparáveis
belezas pouco visíveis
Relegado chão de procissões
no penhor das orações
promessa é moeda vigente
Roupas quaram no lajeiro
a brancura se perfaz
e o calor se perpetua
Arroios em finos fios
filho chamado rio
lar de tantos relicários
Tão longe do vazio aglomerado
o sertão não se desbota
o horizonte é matizado de minúcias.
Val Mello é piauiense, poeta, ilustradora, administradora de empresas, MBA em Gestão de qualidade, pós-graduada em Moda-arte, especializada em croquis femininos. Autora de três livros, sendo um em coautoria. Possui textos publicados em dezenas de coletâneas, sites, jornais, revistas físicas e eletrônicas, no Brasil e no Exterior. Recebeu o Prêmio Manuel Bandeira de Poesia, com o livro Vermelhos In Versos, concedido pela UBE-RJ. Recebeu o Prêmio Ecos da Literatura 2024 — categoria Melhor Ilustração de Livro Infantil. É quadrinista da série Hestrãnhuz. Faz parte do Grupo Poesia Simplesmente e compõe a diretoria da APPERJ.
Texto de Adriano Lobão Aragão, publicado na revista Cult, fevereiro de 2026.



Poema publicado na revista Cult, janeiro de 2026.


CANTANHÊDE, Luiza. Plantação de horizontes. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2023.
⸻
UM ARCO-ÍRIS NA CASA DESTRUÍDA
Entre o que fere
E o que mata,
A fé, eternamente exausta,
Gesta o que no corpo sangra
A vida
De dedo em riste
Anuncia a nossa
Trágica existência:
Prepara-te para
A fome
A bala perdida
O trabalho escravo
Os tapas na cara
O feminicídio.
Enquanto
O nosso peito
Sangra
As manhãs
Acolhem
O doloroso milagre
Do recomeço.
⸻
.
INTERMEZZO
Não é apenas
Sobre meus pedaços
Jogados por aí.
Não é sobre
O desespero
Dos famintos;
Os disparos;
O menino preto
Apanhando da polícia.
Não é sobre a democracia;
Não é sobre o antilirismo;
A morte do amor.
É sobre esse bicho triste
Engaiolado em meu peito
Flertando com a aurora.
Luiza Cantanhêde nasceu em Santa Inês, no Maranhão. Poeta e formada em Contabilidade. Presidente da Academia Piauiense de Poesia; Diretora da Associação de jornalistas e escritoras do Brasil-MA; Vice-presidente regional da Academia Poética Brasileira; membro da Sociedade de Cultura Latina do Maranhão e do Mulherio das Letras. Publicou Palafitas; Amanhã, serei uma flor Insana; Pequeno ensaio amoroso, todos de poesia.
M. de MOURA FILHO
Publicado originalmente, em 3 de setembro de 2010, no blog: http://mourafil.blogspot.com/2010/09/canteiro-de-obras-na-ultima-quinta.html
Dos integrantes do Grupo Tarântulas de Contistas, talvez, eu seja o mais ficcionista. Calma. Não disse o melhor – esta avaliação, espero, fica por conta do leitor, e não serei eu, com todo o pudor que possuo, que irei influenciá-lo. Decerto que, não posso negar, cometi poesias. A única publicada, pela flagrante generosidade do editor, Cineas Santos, no Descartável, com capa em xilogravura do magistral Fernando Costa, era, em verdade, uma antipoesia:
A poesia é seca/é saco/é soco, ou algo parecido.
Tenho a poesia, via de regra, notadamente em recitais, como torturas por vogons, que podem levar – é a pura verdade –, ao suicídio. Melhor: tinha. Até que, com Airton Sampaio e J. L. Rocha do Nascimento, fui ao Canteiro de Obras, e conheci os poetas da Academia Onírica, por ocasião do 7º Encontro Poético, dedicado ao Manoel de Barros. Claro que nem todos os poetas são vogons. Adriano Lobão Aragão, por exemplo, que não é integrante da Academia, certamente não é.
Bem, gostei do 7º Encontro Poético da Academia Onírica. Decerto que, na ocasião, o poeta Ferreira mostrou que a poesia tarja preta não se lhe aplicava. Afinal, verbalizou cus, bocetas e paus como meros palavrões, com lançamento de garrafas de cajuínas ao público, tamborete em pedais, serração, isto mesmo, serração do livro do homenageado e, depois, afastado do microfone, proferiu discurso de que a poesia do grupo, vejam vocês, era conservadora. Definitivamente, a poesia do Ferreira, apresentada no Encontro, não se curva à profilaxia tarja preta. O recomendado, pela perfomance, embora já não mais recomendado, é o choque elétrico.
Gostei tanto que repeti a visita ao Canteiro de Obras no 8º Encontro Poético, dedicado ao Arnaldo Antunes. O Thiago E., disse-lhe, aliás, estava muito Arnaldo Antunes. Mas isto é mais próprio de uma nova postagem.
Foto: Thiago E, fotografado por Kátia Barbosa
Nota: A poesia Vogon é um estilo literário fictício da série O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, reconhecida como a terceira pior poesia de todo o universo. É caracterizada por ser insensível, burocrática, nonsense e usada pelos Vogons como método de tortura.
Matéria de Edson Costa, no caderno Metrópole, do jornal O Dia, de 02 de agosto de 2009.
FELICIANO BEZERRA
Publicado originalmente em Sapiência – Informativo Científico da FAPEPI, em 10 de abril de 2006. http://www.fapepi.pi.gov.br/novafapepi/sapiencia8/artigos3.php
A difusão da literatura e das artes brasileiras sempre se deu em torno de revistas. Todas as grandes movimentações estéticas e literárias tiveram suas revistas como foro emancipatório das idéias dos ativistas envolvidos em tal ou qual articulação artística.
A revista Klaxon, veículo ápice do movimento modernista, assim apregoava em seu editorial de maio de 1922: “Klaxon tem uma alma coletiva que se caracteriza pelo ímpeto construtivo”. Este é o tom mais ou menos corrente que encontramos em quase todas as revistas literárias e estéticas, ou seja, ao divulgarem suas idéias, os envolvidos inflamam-se, sem pejo, como iniciadores do inusitado, como inauguradores de um novo tempo cultural; é sempre assim, mesmo que o apregoado não passe de um coroamento de algum processo de evolução estética que viria a ocorrer naturalmente. Claro que já aconteceu de alguma revista ter lançado uma idéia estética realmente virgem de aplicação, mas em geral, trata-se apenas de um modo de reunir pessoas e idéias congruentes entre si; o que não invalida, evidentemente, a necessidade da existência de tais revistas. Só pra ficarmos ainda no modernismo, tivemos várias outras, cada uma representando seu grupo e suas idéias autoproclamadas de melhores: Revista do Brasil, A revista, Estética, Terra Roxa e outras terras, Festa, Orfeu…
Há muitas revistas importantes em nossa história literária e estética. A revista Clima, por exemplo, lançada em 1941, por Alfredo Mesquita, Antonio Cândido, Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, criou um eixo crítico de análise da produção cultural brasileira de grande envergadura àquela época. Nos anos de 1950 tivemos a revista Noigandres, capitaneada pelos poetas-críticos Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, que lançaram inovações experimentais ao fazer poético, gerando o movimento de poesia concreta e criando um sério compromisso com a tradição de invenção em poesia, além de elevar o padrão de tradução de textos literários no Brasil.
Nas décadas de 1960 e 1970, houve uma proliferação de revistas. Da crítica séria e testamentária ao desbunde contracultural, tivemos vários títulos: Presença, Invenção, Navilouca, Pólem, Bondinho, Flor do mal, Verbo encantado, O sol… Todas sempre trazendo à discussão aquilo em que acreditavam, pautadas em crenças iluministas próprias, com mostras mosaicas de ideais revolucionários: críticos, comportamentais, políticos, existenciais e que tais.
O Piauí também apresenta suas revistas. No início do século XX tivemos a Alvorada, Cidade Luz, Litericultura, Revista da Academia Piauiense de Letras (que ainda resiste, não se sabe como), e bem depois a pós-modernista Meridiano. Hoje circulam alguns periódicos, embora permaneça certa tradição ‘oficiosa’ das revistas institucionais de órgãos públicos responsáveis pela difusão cultural. Para isso, têm-se as revistas Cadernos de Teresina, da Fundação Cultural Monsenhor Chaves e Presença, do Conselho Estadual de Cultura e Fundação Cultural do Piauí. Ambas cumprem basicamente a necessidade de amostragem de algo da produção cultural piauiense, com linhas editorias sempre ao sabor dos ocupantes de tais órgãos que representam. Normalmente aglomeram trabalhos de autores de vários matizes, muitos deles com qualidade flagrantemente duvidosa. Talvez por um falso critério democrático ou meramente por serem piauienses, queira-se justificar a publicação de produções literárias e acadêmicas que poderiam prudentemente permanecer em suas gavetas, fora a repetição exaustiva de alguns mesmos autores, que não excitam e não trazem prospecção cultural.
Fora do eixo institucional tem-se a revista Pulsar, apaixonadamente conduzida pelo artista plástico Amaral. Nela vemos uma intenção estética, uma preocupação qualitativa em seu arrojo gráfico-visual com aquela extravagância de espaço (parecida com a revista O Carioca, lançada pelo poeta Chacal e que circulou nos anos de 1990). O rumo editorial é também o da valorização de autores e coisas do Piauí, algo legítimo, mas que poderia trazer uma abertura maior, um diálogo mais fecundo com a cultura em seu sentido lato. O particular é sempre dialógico com o global. E mesmo porque em seu subtítulo Pulsar se autoproclama ‘uma revista de cultura’…
Há ainda a revista De Repente, editada pelo poeta e cordelista Pedro Costa, que, embora sendo um órgão de divulgação da Fundação Nordestina de Cordel, traz assuntos os mais variados e um foco em autores e temas piauienses. A revista padece com o desnível de seus colaboradores, percebe-se um clima de troca de favores, de empenho altruísta a serviço de alguma causa em detrimento da qualidade dos textos apresentados.
No âmbito virtual, pode-se navegar pela revista Amálgama. Voltada para investigações literárias, possui certas volutas teóricas tão densas quanto ausentes de unidade. A aridez científica ali encontrada prejudica o enlace cultural, o leitor não recebe tratamento convidativo para o informe estético.
A angústia maior é que as revistas, sejam do Piauí ou alhures, sempre sofreram com a falta de perenidade, os problemas de editoração são imensos. Contudo, é ocioso dizer, como reverberação da produção cultural, como circulação de ideias e exercício da crítica, revistas culturais são necessárias e fundamentais.
Feliciano José Bezerra Filho é Doutor em Comunicação e Semiótica – PUC/SP. Professor do Curso de Letras da UESPI. felicianofilho@uol.com.br