Plantação de horizontes, Luiza Cantanhêde

CANTANHÊDE, Luiza. Plantação de horizontes. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2023.

UM ARCO-ÍRIS NA CASA DESTRUÍDA

Entre o que fere
E o que mata,
A fé, eternamente exausta,
Gesta o que no corpo sangra

A vida
De dedo em riste
Anuncia a nossa
Trágica existência:
Prepara-te para
A fome
A bala perdida
O trabalho escravo
Os tapas na cara
O feminicídio.

Enquanto
O nosso peito
Sangra
As manhãs
Acolhem
O doloroso milagre
Do recomeço.

.
INTERMEZZO

Não é apenas
Sobre meus pedaços
Jogados por aí.

Não é sobre
O desespero
Dos famintos;
Os disparos;
O menino preto
Apanhando da polícia.

Não é sobre a democracia;
Não é sobre o antilirismo;
A morte do amor.

É sobre esse bicho triste
Engaiolado em meu peito
Flertando com a aurora.

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Luiza Cantanhêde nasceu em Santa Inês, no Maranhão. Poeta e formada em Contabilidade. Presidente da Academia Piauiense de Poesia; Diretora da Associação de jornalistas e escritoras do Brasil-MA; Vice-presidente regional da Academia Poética Brasileira; membro da Sociedade de Cultura Latina do Maranhão e do Mulherio das Letras. Publicou Palafitas; Amanhã, serei uma flor Insana; Pequeno ensaio amoroso, todos de poesia.

Canteiro de Obras na última quinta-feira do mês

M. de MOURA FILHO

Publicado originalmente, em 3 de setembro de 2010, no blog: http://mourafil.blogspot.com/2010/09/canteiro-de-obras-na-ultima-quinta.html

Dos integrantes do Grupo Tarântulas de Contistas, talvez, eu seja o mais ficcionista. Calma. Não disse o melhor – esta avaliação, espero, fica por conta do leitor, e não serei eu, com todo o pudor que possuo, que irei influenciá-lo. Decerto que, não posso negar, cometi poesias. A única publicada, pela flagrante generosidade do editor, Cineas Santos, no Descartável, com capa em xilogravura do magistral Fernando Costa, era, em verdade, uma antipoesia:

A poesia é seca/é saco/é soco, ou algo parecido.

Tenho a poesia, via de regra, notadamente em recitais, como torturas por vogons, que podem levar – é a pura verdade –, ao suicídio. Melhor: tinha. Até que, com Airton Sampaio J. L. Rocha do Nascimento, fui ao Canteiro de Obras, e conheci os poetas da Academia Onírica, por ocasião do 7º Encontro Poético, dedicado ao Manoel de Barros. Claro que nem todos os poetas são vogons. Adriano Lobão Aragão, por exemplo, que não é integrante da Academia, certamente não é.

Bem, gostei do 7º Encontro Poético da Academia Onírica. Decerto que, na ocasião, o poeta Ferreira mostrou que a poesia tarja preta não se lhe aplicava. Afinal, verbalizou cus, bocetas e paus como meros palavrões, com lançamento de garrafas de cajuínas ao público, tamborete em pedais, serração, isto mesmo, serração do livro do homenageado e, depois, afastado do microfone, proferiu discurso de que a poesia do grupo, vejam vocês, era conservadora.  Definitivamente, a poesia do Ferreira, apresentada no Encontro, não se curva à profilaxia tarja preta. O recomendado, pela perfomance, embora já não mais recomendado, é o choque elétrico.

Gostei tanto que repeti a visita ao Canteiro de Obras no 8º Encontro Poético, dedicado ao Arnaldo Antunes. O Thiago E., disse-lhe, aliás, estava muito Arnaldo Antunes. Mas isto é mais próprio de uma nova postagem.

Foto: Thiago E, fotografado por Kátia Barbosa

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Nota: A poesia Vogon é um estilo literário fictício da série O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, reconhecida como a terceira pior poesia de todo o universo. É caracterizada por ser insensível, burocrática, nonsense e usada pelos Vogons como método de tortura.

Revistas culturais

FELICIANO BEZERRA

Publicado originalmente em Sapiência – Informativo Científico da FAPEPI, em 10 de abril de 2006. http://www.fapepi.pi.gov.br/novafapepi/sapiencia8/artigos3.php

A difusão da literatura e das artes brasileiras sempre se deu em torno de revistas. Todas as grandes movimentações estéticas e literárias tiveram suas revistas como foro emancipatório das idéias dos ativistas envolvidos em tal ou qual articulação artística.

A revista Klaxon, veículo ápice do movimento modernista, assim apregoava em seu editorial de maio de 1922: “Klaxon tem uma alma coletiva que se caracteriza pelo ímpeto construtivo”. Este é o tom mais ou menos corrente que encontramos em quase todas as revistas literárias e estéticas, ou seja, ao divulgarem suas idéias, os envolvidos inflamam-se, sem pejo, como iniciadores do inusitado, como inauguradores de um novo tempo cultural; é sempre assim, mesmo que o apregoado não passe de um coroamento de algum processo de evolução estética que viria a ocorrer naturalmente. Claro que já aconteceu de alguma revista ter lançado uma idéia estética realmente virgem de aplicação, mas em geral, trata-se apenas de um modo de reunir pessoas e idéias congruentes entre si; o que não invalida, evidentemente, a necessidade da existência de tais revistas. Só pra ficarmos ainda no modernismo, tivemos várias outras, cada uma representando seu grupo e suas idéias autoproclamadas de melhores: Revista do Brasil, A revista, Estética, Terra Roxa e outras terras, Festa, Orfeu…

Há muitas revistas importantes em nossa história literária e estética. A revista Clima, por exemplo, lançada em 1941, por Alfredo Mesquita, Antonio Cândido, Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, criou um eixo crítico de análise da produção cultural brasileira de grande envergadura àquela época. Nos anos de 1950 tivemos a revista Noigandres, capitaneada pelos poetas-críticos Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, que lançaram inovações experimentais ao fazer poético, gerando o movimento de poesia concreta e criando um sério compromisso com a tradição de invenção em poesia, além de elevar o padrão de tradução de textos literários no Brasil.

Nas décadas de 1960 e 1970, houve uma proliferação de revistas. Da crítica séria e testamentária ao desbunde contracultural, tivemos vários títulos: Presença, Invenção, Navilouca, Pólem, Bondinho, Flor do mal, Verbo encantado, O sol… Todas sempre trazendo à discussão aquilo em que acreditavam, pautadas em crenças iluministas próprias, com mostras mosaicas de ideais revolucionários: críticos, comportamentais, políticos, existenciais e que tais.

O Piauí também apresenta suas revistas. No início do século XX tivemos a Alvorada, Cidade Luz, Litericultura, Revista da Academia Piauiense de Letras (que ainda resiste, não se sabe como), e bem depois a pós-modernista Meridiano. Hoje circulam alguns periódicos, embora permaneça certa tradição ‘oficiosa’ das revistas institucionais de órgãos públicos responsáveis pela difusão cultural. Para isso, têm-se as revistas Cadernos de Teresina, da Fundação Cultural Monsenhor Chaves e Presença, do Conselho Estadual de Cultura e Fundação Cultural do Piauí. Ambas cumprem basicamente a necessidade de amostragem de algo da produção cultural piauiense, com linhas editorias sempre ao sabor dos ocupantes de tais órgãos que representam. Normalmente aglomeram trabalhos de autores de vários matizes, muitos deles com qualidade flagrantemente duvidosa. Talvez por um falso critério democrático ou meramente por serem piauienses, queira-se justificar a publicação de produções literárias e acadêmicas que poderiam prudentemente permanecer em suas gavetas, fora a repetição exaustiva de alguns mesmos autores, que não excitam e não trazem prospecção cultural.

Fora do eixo institucional tem-se a revista Pulsar, apaixonadamente conduzida pelo artista plástico Amaral. Nela vemos uma intenção estética, uma preocupação qualitativa em seu arrojo gráfico-visual com aquela extravagância de espaço (parecida com a revista O Carioca, lançada pelo poeta Chacal e que circulou nos anos de 1990). O rumo editorial é também o da valorização de autores e coisas do Piauí, algo legítimo, mas que poderia trazer uma abertura maior, um diálogo mais fecundo com a cultura em seu sentido lato. O particular é sempre dialógico com o global. E mesmo porque em seu subtítulo Pulsar se autoproclama ‘uma revista de cultura’…

Há ainda a revista De Repente, editada pelo poeta e cordelista Pedro Costa, que, embora sendo um órgão de divulgação da Fundação Nordestina de Cordel, traz assuntos os mais variados e um foco em autores e temas piauienses. A revista padece com o desnível de seus colaboradores, percebe-se um clima de troca de favores, de empenho altruísta a serviço de alguma causa em detrimento da qualidade dos textos apresentados.

No âmbito virtual, pode-se navegar pela revista Amálgama. Voltada para investigações literárias, possui certas volutas teóricas tão densas quanto ausentes de unidade. A aridez científica ali encontrada prejudica o enlace cultural, o leitor não recebe tratamento convidativo para o informe estético.

A angústia maior é que as revistas, sejam do Piauí ou alhures, sempre sofreram com a falta de perenidade, os problemas de editoração são imensos. Contudo, é ocioso dizer, como reverberação da produção cultural, como circulação de ideias e exercício da crítica, revistas culturais são necessárias e fundamentais.

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Feliciano José Bezerra Filho é Doutor em Comunicação e Semiótica – PUC/SP. Professor do Curso de Letras da UESPI. felicianofilho@uol.com.br

Incertezas poéticas, Jota Cunha

CUNHA, Jota. Incertezas poéticas. Parnaíba: Edição do autor, 2022.

PEDRA

pedra
somente sólida
impenetrável e dura
quem diria ser uma ilha
pedra
indestrutível seca
de natureza insólita
uma lápide em sua lâmina
pedra
textura de pedra
pura invariável isolada
destino no que se diferencia
pedra
rija que a vida toda
reage e o sol esquenta
fixa despretensiosa bonita
pedra
lógica de pedra
sendo só o que é – em glória
sendo origem sendo tempo sendo pedra

phb–19.05.20

PERNAS

pernas recorte no espaço
desenhado no ar colírio
ritmo natural do desejo

pernas despretensiosas
apenas elas nelas mesmas
quase poemas que andam

pernas de tornos e contornos
postos em capas de caderno
de revistas e tetos de quartos

pernas de trazer e levar
corpo e olhos de amar
motor de luz saborizada

pernas no movimento redigem
e a poesia não esquece
nem os menores caracteres

os olhos testemunham úteis
só as pernas escrevem
o que a precisão não descreve

phb–24.06.20

 

P

Jota Cunha, Julcemir Oliveira Cunha, nasceu no município de Caxias, no povoado de Santana dos Nunes, estado do Maranhão. Em 1968 mudou-se para Teresina, PI. Em 1970 foi para o Rio de Janeiro, e de lá para Brasília, onde começou a trabalhar, e logo, depois de estabelecido, cursou Administração de Empresas na Católica de Brasília. Trabalhou na Embrater até 1990, quando mudou-se para Curitiba–PR, e trabalhou na UFPR até aposentar-se em 2010. Em 2017, quando mudou-se para Parnaíba, no Piauí, fez um apanhado em mais de 30 anos de rascunhos e publicou seu primeiro livro de poemas. Publica poesias, textos, vídeos e música através do instagram @incertezas_poéticas.

Haicai – Do Sertão ao Japão

Haicai – Do Japão ao Sertão. Coletânea de poemas organizada por José De Nicola e Cineas Santos [Teresina: Oficina da Palavra, 2025].

Participaram do livro: Adriano Lobão Aragão, Carlos Emílio Faraco, Cineas Santos, Climério Ferreira, Dalila Teles Veras, Demetrios Galvão, Dilson Lages Monteiro, Ernâni Getirana, Francisco Magalhães, Graça Vilhena, J.L. Rocha do Nascimento, José De Nicola, Marina Campelo, Marleide Lins, Menezes y Morais, Paulo Moura, Penélope Martins, Rogério Newton, Roseana Murray, Rubervam Du Nascimento, Suzana Vargas, Tanussi Cardoso, Thiago E e Val Melo

O poema é o bicho

Que tipo de bicho é o poema? Neste livro, doze poetas transformam versos em bichos (e vice-versa). Uns miúdos, outros imensos, todos pulsando vida. Gata, girafa, formiga, lagarta, passarinho, tigre, borboleta… cada criatura se reinventa em palavra. Leia devagar: pode ser que uma joaninha resolva acompanhar a leitura pousando no seu ombro. Se preferir, pode até colorir. [Adriano Lobão Aragão / Thiago E]

uma zoologia poética

A coletânea de poemas, a ser lida a seguir, reúne doze poetas contemporâneos, arregimentados do Piauí, do Maranhão e da cubana Pinar del Rio. A aliança pretende nos dizer da vitalidade, da atenção ao sopro da poesia de nosso tempo. Além disso, “o poema é o bicho” aprofunda a escolha e traz todos os poemas encilhados em mimese zoológica, sumarizando uma espécie de bestiário poético. A mobilidade verbal dos poemas investe na percepção diante dos bichos e seus condicionantes biológicos, suas curiosidades instintivas, além de lhes serem dadas outras atribuições semânticas e imagéticas pelo olhar do(a) poeta, inspecionando assim nosso irresoluto dialético entre natureza e cultura.

Outra concentração aqui encontrada atende à poética da brevidade. A concisão, a celebração da síntese como conduto estrutural do poema, o breve contrapondo-se ao caudal lírico são a fatura resultante. Alguns assumem as lições dos poetas japoneses Bashô e Issa com a essencialidade do haicai, essa tradição que se espalha há tempos pelo poema brasileiro e que já ganhou dicção pindorâmica. E como a língua portuguesa não dispõe de escrita ideogramática para a possibilidade visual do poema, a coletânea recorre ao signo gráfico como representação, cada poema recebe sua nomeação iconográfica. Aos cuidados de Adriano Lobão, os traços também avultam em concisão e seguem a economia de informação, trazendo a figuratividade no contorno e no residual do grafismo em preto e branco.

Esta apresentação seguiu também a sintaxe da brevidade, restando ao leitor e leitora a complementaridade com a recepção a esta fauna poética.

Feliciano Bezerra
Professor de literatura (UESPI),
cantor e compositor

O poema é o bicho. Coletânea de poemas organizada por Marleide Lins e Thiago E, com ilustrações de Adriano Lobão Aragão [Teresina:  AvantGarde, 2025]. Participaram do livro: Adriano Lobão Aragão, Aliã Wamiri Guajajara, Cineas Santos, Demetrios Galvão, Laís Romero, Luiza Cantanhêde, Marian Campelo, Marleide Lins, Nelson Simón, Sergia Alves, Thiago E e Wanderson Lima.

Fotógato

 haikais e quase-canções

O Piauí é o estado brasileiro com o maior percentual de casas com gatos. Segundo o IBGE, são 32,6% das residências abrigando, pelo menos, um chanin. Basta dar uma volta em Teresina. Eles estão em todo lugar.

Thiago E. Fotos: Adriano Lobão Aragão

A partir de sua convivência com os bichanos, o poeta e músico Thiago E escreveu o livro “Os gatos quando os dias passam” (7Letras). Além de poemas, a publicação também traz várias fotografias dos felinos feitas pelo autor. A exposição FOTÓGATO: haikais e quase-canções apresenta boa parte desse processo. Os textos expostos buscam fazer um diálogo com a felinidade dos gatos. São poemas curtos ou ataques? O poema é uma espécie de canto? O poema longo é como o sono? É uma sintaxe quebrada ou a imprevisibilidade do sonho? A exibição também conta com textos do livro “Cabeça de sol em cima do trem [remix]”, marcado pela variedade como apresenta as possibilidades do poema, explorando a música da língua. 

Thiago E e Douglas Machado

Originalmente, a palavra haikai tinha o sentido de “cômico”. O ideograma hai (俳) significa “bufonaria”, “pantomima”. E também está na palavra haiyū, que significa “ator”, em japonês. Sabe quando a gente se surpreende e diz “engraçado…”, mesmo sem vontade de rir? O haikai também mantém esse sentido. É um poema feito com poucas palavras e costuma quebrar nossa expectativa. Sua forma foi consolidada no Japão de séculos atrás, uma cultura muito diferente da nossa. Logo, pode causar certo estranhamento ao que costumamos chamar de poesia. Porém, que tal tentar entender o estranhamento?

Thiago E e Douglas Machado

O haikai ensina novas maneiras de percepção de si, do mundo. Escrito com vocabulário simples, tem duas partes em justaposição que se complementam indiretamente. É uma forma de meditação com a passagem das estações, uma disciplina com a permanente impermanência, um caminho para “apenas estar desperto”, evidenciando seu substrato budista, pois leva quem escreve a se integrar com as mínimas formas de vida ao redor.

 

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Sensores, Valéria Silva

SILVA, Valéria. Sensores. Teresina, Área de Criação: 2025.

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NOTÍVAGA

Um toque profano triunfa em meu coração
Carrega-me pelas noites embriagadas
Dos becos desabitados
Das casas em penumbra
Entrego-me.
Os copos cheios e os goles ávidos
Arrastam a dor pela minha garganta.
Escorrendo pelo meu peito
Arranca o senso
Apaga o amanhã e a memória de mim mesma.
Corpos feitos dóceis
Camas fáceis
Histórias amargas…
A correnteza dos meus olhos
Banha meu corpo quase vivo.

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DÁ LICENÇA?

Não me peçam paciência
Carrego a pressa do pouco tempo a fruir.

Não me peçam insurgência
Faço-me de antigos hábitos a me perseguir.

Não me peçam urgência
Aprendo associada ao tempo a advir.

Não me peçam potência
Minha fraqueza me mostra a hora de desistir.

Não me peçam indulgência
Escolho os espíritos torpes obstruir.

Não me peçam prudência
Vivo sem medo o agora e o devir.

Não me peçam reticências
Só pude ser assertiva e viver sem fingir.

Não me peçam desistência
Aprendo na luta quão decisivo é insistir.

Não me peçam permanência
Morro a cada instante no caminho a descobrir.

Não me peçam coerência
Estou fadada ao erro, após cada acerto atingir.

Não me peçam excelência
Sigo incompleta, fazendo-me no existir.

Não me peçam!
Não me peçam…
Vivam, se puderem
E me deixem viver.
Contraditoriamente…
Humanamente…
E isso é tudo.

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De dentro de mim partiu a última caravela, Rubervam Du Nascimento

DU NASCIMENTO, Rubervam. De dentro de mim partiu a última caravela. Leiria, Portugal: Arquivo Bens Culturais, 2021.

Poemas | Prêmio de Poesia Francisco Rodrigues Lobo

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Provoco noite a errar caminho de volta do exílio da voz
você nunca foi deportado para um país que não existia mais
Acho graça nas pétalas transformadas em buquê de lama
nas ovas em ilusão de bolas de gude na trilha de crustáceos
na dobra da blusa a esconder abelha do beijo mortal da flor
Esmago odor do charuto do mangue a embriagar meu chão
uso cheiro do capim do braço para esfregar frio do nariz
Convenço mimosa a fechar-se ao toque do insulto do dedo
arranco pela raiz erva daninha a sugar água da minha areia
Transporto correr de hora no fundo de palha do meu patuá
colho por onde passo cacos da manhã pisada pelo escuro
Última caravela partiu de dentro de mim carregada de fogo
para irrigar osso no campo de plantio do dia do meu amado
e do sol

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Não adianta cativo da desforra da borduna
fazer pose de senhor do céu do mar da terra
negar à zoada do terreiro naco de seu miolo
declarar-se fundador de escola de mágico
Não adianta querer substituir azedo da fome
no ponto de engolir fatia de ponte de melão
por semente de nuvem caída do tamarisco
Não adianta fingir transportar seu fantasma
exigir pressa à alma a vagar pelo oceano seco
em procissão de exílio ao horizonte de lona
Seu espírito será vomitado por não se permitir
ser derramado em lugar da voz da manhã
da garganta do pântano do meu amado
e do sol

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Rubervam Du Nascimento é de São Luís do Maranhão, nordeste do Brasil. Viveu 46 anos em Teresina, capital do Estado do Piauí. Reside actualmente em Santo André, na Grande São Paulo. Formação acadêmica em Ciências Jurídicas e Sociais. Integrou a Coordenadoria de literatura da revista “Pulsar”, editada no Piauí, na ‘década de 80’. Participa de Feiras de Livros, Festivais Literários, com a Leitura Poética: O Prazer da Língua, iniciada em Maputo/Moçambique, em 2011, levada a vários estados brasileiros e a diversos países. Livros de poemas editados: A Profissão dos Peixes (2ª edição, revista e diminuída – Editora Códice/DF/Brasil, 1993); Marco Lusbel Desce ao Inferno (Editora Blocos/RJ/Brasil, 1997); Às Vezes, Criança – Um Quase-Retrato de Uma Infância Roubada, com fotografias de Sérgio Carvalho (Tribunal Regional do Trabalho, TRT-7 /Fortaleza/CE/Brasil, 2012); Os Cavalos de Dom Ruffato (Recife-PE/Brasil, 2004); Espólio (Scortecci Editora/SP/Brasil, 2007) e Dandaras (plaquete com 22 poemas, impressa manualmente em Buenos Aires/Argentina – Sangre Editorial/Caravana – coleção 32 – MG/Brasil, 2019)