Haicai – Do Sertão ao Japão

Haicai – Do Japão ao Sertão. Coletânea de poemas organizada por José De Nicola e Cineas Santos [Teresina: Oficina da Palavra, 2025].

Participaram do livro: Adriano Lobão Aragão, Carlos Emílio Faraco, Cineas Santos, Climério Ferreira, Dalila Teles Veras, Demetrios Galvão, Dilson Lages Monteiro, Ernâni Getirana, Francisco Magalhães, Graça Vilhena, J.L. Rocha do Nascimento, José De Nicola, Marina Campelo, Marleide Lins, Menezes y Morais, Paulo Moura, Penélope Martins, Rogério Newton, Roseana Murray, Rubervam Du Nascimento, Suzana Vargas, Tanussi Cardoso, Thiago E e Val Melo

O poema é o bicho

Que tipo de bicho é o poema? Neste livro, doze poetas transformam versos em bichos (e vice-versa). Uns miúdos, outros imensos, todos pulsando vida. Gata, girafa, formiga, lagarta, passarinho, tigre, borboleta… cada criatura se reinventa em palavra. Leia devagar: pode ser que uma joaninha resolva acompanhar a leitura pousando no seu ombro. Se preferir, pode até colorir. [Adriano Lobão Aragão / Thiago E]

uma zoologia poética

A coletânea de poemas, a ser lida a seguir, reúne doze poetas contemporâneos, arregimentados do Piauí, do Maranhão e da cubana Pinar del Rio. A aliança pretende nos dizer da vitalidade, da atenção ao sopro da poesia de nosso tempo. Além disso, “o poema é o bicho” aprofunda a escolha e traz todos os poemas encilhados em mimese zoológica, sumarizando uma espécie de bestiário poético. A mobilidade verbal dos poemas investe na percepção diante dos bichos e seus condicionantes biológicos, suas curiosidades instintivas, além de lhes serem dadas outras atribuições semânticas e imagéticas pelo olhar do(a) poeta, inspecionando assim nosso irresoluto dialético entre natureza e cultura.

Outra concentração aqui encontrada atende à poética da brevidade. A concisão, a celebração da síntese como conduto estrutural do poema, o breve contrapondo-se ao caudal lírico são a fatura resultante. Alguns assumem as lições dos poetas japoneses Bashô e Issa com a essencialidade do haicai, essa tradição que se espalha há tempos pelo poema brasileiro e que já ganhou dicção pindorâmica. E como a língua portuguesa não dispõe de escrita ideogramática para a possibilidade visual do poema, a coletânea recorre ao signo gráfico como representação, cada poema recebe sua nomeação iconográfica. Aos cuidados de Adriano Lobão, os traços também avultam em concisão e seguem a economia de informação, trazendo a figuratividade no contorno e no residual do grafismo em preto e branco.

Esta apresentação seguiu também a sintaxe da brevidade, restando ao leitor e leitora a complementaridade com a recepção a esta fauna poética.

Feliciano Bezerra
Professor de literatura (UESPI),
cantor e compositor

O poema é o bicho. Coletânea de poemas organizada por Marleide Lins e Thiago E, com ilustrações de Adriano Lobão Aragão [Teresina:  AvantGarde, 2025]. Participaram do livro: Adriano Lobão Aragão, Aliã Wamiri Guajajara, Cineas Santos, Demetrios Galvão, Laís Romero, Luiza Cantanhêde, Marian Campelo, Marleide Lins, Nelson Simón, Sergia Alves, Thiago E e Wanderson Lima.

Fotógato

 haikais e quase-canções

O Piauí é o estado brasileiro com o maior percentual de casas com gatos. Segundo o IBGE, são 32,6% das residências abrigando, pelo menos, um chanin. Basta dar uma volta em Teresina. Eles estão em todo lugar.

Thiago E. Fotos: Adriano Lobão Aragão

A partir de sua convivência com os bichanos, o poeta e músico Thiago E escreveu o livro “Os gatos quando os dias passam” (7Letras). Além de poemas, a publicação também traz várias fotografias dos felinos feitas pelo autor. A exposição FOTÓGATO: haikais e quase-canções apresenta boa parte desse processo. Os textos expostos buscam fazer um diálogo com a felinidade dos gatos. São poemas curtos ou ataques? O poema é uma espécie de canto? O poema longo é como o sono? É uma sintaxe quebrada ou a imprevisibilidade do sonho? A exibição também conta com textos do livro “Cabeça de sol em cima do trem [remix]”, marcado pela variedade como apresenta as possibilidades do poema, explorando a música da língua. 

Thiago E e Douglas Machado

Originalmente, a palavra haikai tinha o sentido de “cômico”. O ideograma hai (俳) significa “bufonaria”, “pantomima”. E também está na palavra haiyū, que significa “ator”, em japonês. Sabe quando a gente se surpreende e diz “engraçado…”, mesmo sem vontade de rir? O haikai também mantém esse sentido. É um poema feito com poucas palavras e costuma quebrar nossa expectativa. Sua forma foi consolidada no Japão de séculos atrás, uma cultura muito diferente da nossa. Logo, pode causar certo estranhamento ao que costumamos chamar de poesia. Porém, que tal tentar entender o estranhamento?

Thiago E e Douglas Machado

O haikai ensina novas maneiras de percepção de si, do mundo. Escrito com vocabulário simples, tem duas partes em justaposição que se complementam indiretamente. É uma forma de meditação com a passagem das estações, uma disciplina com a permanente impermanência, um caminho para “apenas estar desperto”, evidenciando seu substrato budista, pois leva quem escreve a se integrar com as mínimas formas de vida ao redor.

 

p

Os gatos quando os dias passam, Thiago E

E, Thiago. Os gatos quando os dias passam. Rio de Janeiro: 7Letras, 2021.

_________________

Compasso |

talvez | por amor à música
teria a gata | uma pauta
:
compor | só os sons necessários
ser a duração da pausa |

_________________

Os gatos quando os dias passam

[ segunda ]
a gata
só ama com as unhas:
o afeto destrói
alguns móveis da sala.

*

[ terça ]
coração selvagem:
chega
pisa
pesa
azunha –
felinos ferem para confiar

*

[ quarta ]
noite quente:
um gato deitado
no teto do carro.

a leitura
dura
um pulo!

Gatos são haikais?

*

[ quinta ]
poemas de pelos:
a leitura
dura
um pulo –

gatos ou haikais?

*

[ sexta ] às 7h15
sofá no monturo:
de bruços
a gata da rua
faz sala pro mundo

( às 14h )

das patas
das gatas
surgem agulhas:
máquina de descostura

*

[ sábado ] tanka às 17h
a gata boceja
estirada
no meu colo:
um rabo-de-tesoura
corta o céu da tarde

*

[ domingo ]
shhh… felinos dormem
setenta por cento
do tempo:
realidade e sonho
o gato não separa

p

Thiago E nasceu em Teresina, Piauí. É filho da Neide e do Zorro. Publicou Cabeça de sol em cima do trem (disco e livro). Foi um dos criadores da revista Acrobata. Integrou por 12 anos a banda Validuaté, com a qual lançou os álbuns Pelos pátios partidos em festa; Alegria girar; Este lado para cima; e Validuaté ao vivo.

Cabeça de sol em cima do trem, Thiago E

E, Thiago. Cabeça de sol em cima do trem. Teresina: Corsário, 2013.

MURO
s.m.
 
o que há dentro do muro não é assim tão bruto ; um pensamento sofre na argamassa que lhe cobre ; angústia o muro sente, desde antigamente : é cego todo sempre e só sabe apartar gente. há pouco ouviu do chão, com voz de escuridão, que existem as paredes – rijas tal qual ele ; a diferença é que elas têm uma janela, e assim, pela janela, a parede enxerga. janela é uma abertura – não dói, não sutura ; buraco sem reboco movendo-se no corpo ( se a obra tem janela, parede é o nome dela ) cimento e cal sem furo julgam ser um muro. o muro, truvo e mudo, pensa e pensa em tudo : sair daquele escuro e ver a luz do mundo, deixar de ser um muro abrindo em si um furo ainda que esse corte lhe tombe à nula sorte – não sabe como, ainda, mudar a sua química ( rejeita a vil certeza de não ter vista acesa ) deseja em seu chapisco, sim! correr o risco de ter a pele aberta e sentir o que é a janela ; e mesmo sem saber como vai ser outro ser, o muro quer saída, mudar, mover a vida – quer nem que seja a ida da simples dobradiça ; ou algo do porvir que lhe tire deste aqui

.

.

_________

.

s.f.
a língua é um triste molusco, chora um pranto negro e escuro ( molusco triste é essa língua ) lembra e lambe sua dor fina ; dentro da boca, tal molusco chora a falta do seu casco : quer de volta o tempo justo, voltar pra lenda do passado ; lenda velha, antes da boca, tinha concha e casa, escudo e força, mas, num mistério da matéria perdeu a parte mais eterna – se fez só língua e se desintegra ; a língua é um triste molusco já sem esperança, no escuro, de reaver seu casco, ter futuro, resigna-se com riso de chumbo ; como lhe resta ser mesmo língua, linguagem motor – sempre e ainda – é na boca pá e palavra ( fala igual como quem cava ) cava com o corpo um liso assoalho – chão de carnes gêmeas, molhado, buscando na cabeça o antigo casco : roupa e casa, escudo e agasalho ; a língua é um triste molusco, já não sabe se é carne ou um soluço – sem concha, se reinventa no escuro – sem cara, existe feito um espectro espasmo movimento um obgesto

p

Thiago E, músico em reabilitação labiríntica, professor com problemas de visão, gago integrante da banda Validuaté, com a qual lançou dois CDs: Pelos pátios partidos em festa (2007) e Alegria girar (2009). Com o grupo Academia Onírica, editou zines, o CD Veículo q.s.p. e a revista AO (2010 a 2012). Lançou o CD de poesia Cabeça de sol em cima do trem (2013).