Revistas culturais

FELICIANO BEZERRA

Publicado originalmente em Sapiência – Informativo Científico da FAPEPI, em 10 de abril de 2006. http://www.fapepi.pi.gov.br/novafapepi/sapiencia8/artigos3.php

A difusão da literatura e das artes brasileiras sempre se deu em torno de revistas. Todas as grandes movimentações estéticas e literárias tiveram suas revistas como foro emancipatório das idéias dos ativistas envolvidos em tal ou qual articulação artística.

A revista Klaxon, veículo ápice do movimento modernista, assim apregoava em seu editorial de maio de 1922: “Klaxon tem uma alma coletiva que se caracteriza pelo ímpeto construtivo”. Este é o tom mais ou menos corrente que encontramos em quase todas as revistas literárias e estéticas, ou seja, ao divulgarem suas idéias, os envolvidos inflamam-se, sem pejo, como iniciadores do inusitado, como inauguradores de um novo tempo cultural; é sempre assim, mesmo que o apregoado não passe de um coroamento de algum processo de evolução estética que viria a ocorrer naturalmente. Claro que já aconteceu de alguma revista ter lançado uma idéia estética realmente virgem de aplicação, mas em geral, trata-se apenas de um modo de reunir pessoas e idéias congruentes entre si; o que não invalida, evidentemente, a necessidade da existência de tais revistas. Só pra ficarmos ainda no modernismo, tivemos várias outras, cada uma representando seu grupo e suas idéias autoproclamadas de melhores: Revista do Brasil, A revista, Estética, Terra Roxa e outras terras, Festa, Orfeu…

Há muitas revistas importantes em nossa história literária e estética. A revista Clima, por exemplo, lançada em 1941, por Alfredo Mesquita, Antonio Cândido, Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, criou um eixo crítico de análise da produção cultural brasileira de grande envergadura àquela época. Nos anos de 1950 tivemos a revista Noigandres, capitaneada pelos poetas-críticos Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, que lançaram inovações experimentais ao fazer poético, gerando o movimento de poesia concreta e criando um sério compromisso com a tradição de invenção em poesia, além de elevar o padrão de tradução de textos literários no Brasil.

Nas décadas de 1960 e 1970, houve uma proliferação de revistas. Da crítica séria e testamentária ao desbunde contracultural, tivemos vários títulos: Presença, Invenção, Navilouca, Pólem, Bondinho, Flor do mal, Verbo encantado, O sol… Todas sempre trazendo à discussão aquilo em que acreditavam, pautadas em crenças iluministas próprias, com mostras mosaicas de ideais revolucionários: críticos, comportamentais, políticos, existenciais e que tais.

O Piauí também apresenta suas revistas. No início do século XX tivemos a Alvorada, Cidade Luz, Litericultura, Revista da Academia Piauiense de Letras (que ainda resiste, não se sabe como), e bem depois a pós-modernista Meridiano. Hoje circulam alguns periódicos, embora permaneça certa tradição ‘oficiosa’ das revistas institucionais de órgãos públicos responsáveis pela difusão cultural. Para isso, têm-se as revistas Cadernos de Teresina, da Fundação Cultural Monsenhor Chaves e Presença, do Conselho Estadual de Cultura e Fundação Cultural do Piauí. Ambas cumprem basicamente a necessidade de amostragem de algo da produção cultural piauiense, com linhas editorias sempre ao sabor dos ocupantes de tais órgãos que representam. Normalmente aglomeram trabalhos de autores de vários matizes, muitos deles com qualidade flagrantemente duvidosa. Talvez por um falso critério democrático ou meramente por serem piauienses, queira-se justificar a publicação de produções literárias e acadêmicas que poderiam prudentemente permanecer em suas gavetas, fora a repetição exaustiva de alguns mesmos autores, que não excitam e não trazem prospecção cultural.

Fora do eixo institucional tem-se a revista Pulsar, apaixonadamente conduzida pelo artista plástico Amaral. Nela vemos uma intenção estética, uma preocupação qualitativa em seu arrojo gráfico-visual com aquela extravagância de espaço (parecida com a revista O Carioca, lançada pelo poeta Chacal e que circulou nos anos de 1990). O rumo editorial é também o da valorização de autores e coisas do Piauí, algo legítimo, mas que poderia trazer uma abertura maior, um diálogo mais fecundo com a cultura em seu sentido lato. O particular é sempre dialógico com o global. E mesmo porque em seu subtítulo Pulsar se autoproclama ‘uma revista de cultura’…

Há ainda a revista De Repente, editada pelo poeta e cordelista Pedro Costa, que, embora sendo um órgão de divulgação da Fundação Nordestina de Cordel, traz assuntos os mais variados e um foco em autores e temas piauienses. A revista padece com o desnível de seus colaboradores, percebe-se um clima de troca de favores, de empenho altruísta a serviço de alguma causa em detrimento da qualidade dos textos apresentados.

No âmbito virtual, pode-se navegar pela revista Amálgama. Voltada para investigações literárias, possui certas volutas teóricas tão densas quanto ausentes de unidade. A aridez científica ali encontrada prejudica o enlace cultural, o leitor não recebe tratamento convidativo para o informe estético.

A angústia maior é que as revistas, sejam do Piauí ou alhures, sempre sofreram com a falta de perenidade, os problemas de editoração são imensos. Contudo, é ocioso dizer, como reverberação da produção cultural, como circulação de ideias e exercício da crítica, revistas culturais são necessárias e fundamentais.

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Feliciano José Bezerra Filho é Doutor em Comunicação e Semiótica – PUC/SP. Professor do Curso de Letras da UESPI. felicianofilho@uol.com.br

O poema é o bicho

Que tipo de bicho é o poema? Neste livro, doze poetas transformam versos em bichos (e vice-versa). Uns miúdos, outros imensos, todos pulsando vida. Gata, girafa, formiga, lagarta, passarinho, tigre, borboleta… cada criatura se reinventa em palavra. Leia devagar: pode ser que uma joaninha resolva acompanhar a leitura pousando no seu ombro. Se preferir, pode até colorir. [Adriano Lobão Aragão / Thiago E]

uma zoologia poética

A coletânea de poemas, a ser lida a seguir, reúne doze poetas contemporâneos, arregimentados do Piauí, do Maranhão e da cubana Pinar del Rio. A aliança pretende nos dizer da vitalidade, da atenção ao sopro da poesia de nosso tempo. Além disso, “o poema é o bicho” aprofunda a escolha e traz todos os poemas encilhados em mimese zoológica, sumarizando uma espécie de bestiário poético. A mobilidade verbal dos poemas investe na percepção diante dos bichos e seus condicionantes biológicos, suas curiosidades instintivas, além de lhes serem dadas outras atribuições semânticas e imagéticas pelo olhar do(a) poeta, inspecionando assim nosso irresoluto dialético entre natureza e cultura.

Outra concentração aqui encontrada atende à poética da brevidade. A concisão, a celebração da síntese como conduto estrutural do poema, o breve contrapondo-se ao caudal lírico são a fatura resultante. Alguns assumem as lições dos poetas japoneses Bashô e Issa com a essencialidade do haicai, essa tradição que se espalha há tempos pelo poema brasileiro e que já ganhou dicção pindorâmica. E como a língua portuguesa não dispõe de escrita ideogramática para a possibilidade visual do poema, a coletânea recorre ao signo gráfico como representação, cada poema recebe sua nomeação iconográfica. Aos cuidados de Adriano Lobão, os traços também avultam em concisão e seguem a economia de informação, trazendo a figuratividade no contorno e no residual do grafismo em preto e branco.

Esta apresentação seguiu também a sintaxe da brevidade, restando ao leitor e leitora a complementaridade com a recepção a esta fauna poética.

Feliciano Bezerra
Professor de literatura (UESPI),
cantor e compositor

O poema é o bicho. Coletânea de poemas organizada por Marleide Lins e Thiago E, com ilustrações de Adriano Lobão Aragão [Teresina:  AvantGarde, 2025]. Participaram do livro: Adriano Lobão Aragão, Aliã Wamiri Guajajara, Cineas Santos, Demetrios Galvão, Laís Romero, Luiza Cantanhêde, Marian Campelo, Marleide Lins, Nelson Simón, Sergia Alves, Thiago E e Wanderson Lima.