Malinação, José Elielton de Sousa

SOUSA, José Elielton de. Malinação. São Paulo: Primata, 2025.


DRAGÃO LUNAR

a lua nua
clareia o dragão
que vai engolir
o mar e o sertão

.

.

A VILA EM RUÍNAS

e sobre a cidade solar
o peso calado do tempo
invade calçadas memórias

o barro argiloso despacha
antigos vestígios rupestres
da vila escorada nas águas

nos rios canoas e cadáveres
levados nas torrentes em marcha
os bancos de areia resistem

o centro desfaz a paisagem
e sob cemitérios de ossos
feirantes no mercado central

a leste a miséria da riqueza
despeja concreto nas lagoas
e erige museus e suspenses

crispim condenou-nos a todos
sem mãe sem rainha que solte
o grito entalado na garganta

.

p

José Elielton de Sousa nasceu e mora em Teresina, Piauí, e foi criado no interior – para onde sempre volta, ainda que na imaginação. É doutor em filosofia, professor e poeta. Publicou o livro As virtudes da responsabilidade compartilhada: uma ampliação da teoria das virtudes de Alasdair MacIntyre [Filosofia/Editora CRV, 2017] e participou da organização dos livros Hospitalidade Hermenêutica [Filosofia/Fundação Fênix, 2020], Filosofia e um monte de outras coisas [Ensaios/EDUFPI, 2019] e Do Centro da Margem: invenções contemporâneas deste lado de cá do mundo [Ensaios/Fundação Fênix, 2024].  Malinação é seu primeiro livro de poesia.

 

À sombra dos carcarás, Val Mello

MELLO, Val. À sombra dos carcarás. Rio de Janeiro, RJ: Ventura, 2025.

NASCIMENTO

A navalha certeira
desfere seu corte
entrega à sorte
entanguidos umbigos

Na rudeza
do empoeirado gibão
a natureza exibe
boiadeiros sem pastos
destinados a montar em sonhos

O vento os conhece pelo nome
o tempo, pela coragem
e assim são registrados
os desafiantes da morte
pelos gumes da vida.

CHÃO DE RELICÁRIO

Espaço dos sonhos improváveis
prazeres incomparáveis
belezas pouco visíveis

Relegado chão de procissões
no penhor das orações
promessa é moeda vigente

Roupas quaram no lajeiro
a brancura se perfaz
e o calor se perpetua

Arroios em finos fios
filho chamado rio
lar de tantos relicários

Tão longe do vazio aglomerado
o sertão não se desbota
o horizonte é matizado de minúcias.

p

Val Mello é piauiense, poeta, ilustradora, administradora de empresas, MBA em Gestão de qualidade, pós-graduada em Moda-arte, especializada em croquis femininos. Autora de três livros, sendo um em coautoria. Possui textos publicados em dezenas de coletâneas, sites, jornais, revistas físicas e eletrônicas, no Brasil e no Exterior. Recebeu o Prêmio Manuel Bandeira de Poesia, com o livro Vermelhos In Versos, concedido pela UBE-RJ. Recebeu o Prêmio Ecos da Literatura 2024 — categoria Melhor Ilustração de Livro Infantil. É quadrinista da série Hestrãnhuz. Faz parte do Grupo Poesia Simplesmente e compõe a diretoria da APPERJ.